sábado, 24 de julho de 2010

individualidade

-O que é maldade pra você, criança? O que uma jovem como você sabe sobre maldade?
-Pra mim, aquilo que a senhora fez foi maldade.
-(risos) Se você acha que aquilo foi maldade, então pegue a arma que está na gaveta da cômoda e meta uma bala em seus córnios, pois você não tem o mínimo preparo para viver. O mínimo! Você não tem noção do que te espera lá fora, da maldade e do perigo que a vida te implicará. Aquilo que eu fiz foi justiça. Justiça, garota!
-A justiça é maldosa.
-Porém necessária. E escute o que eu lhe digo, muito mais maldosa é a injustiça. E eu sei o que é sofrer por maldade, por injustiça. Eu sei.
Ela realmente sabia.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Meu herói

-O senhor tem certeza, pai?
-Infelizmente sim.
-Tá, eu to indo praí.

Encerrei a chamada, sentei no sofá antes que caísse duro no chão. Não que essa notícia fosse tão surpreendente assim, mas recebê-la era muito pior do que eu imaginava que seria. Eu sabia que ela logo viria, a saúde do vovô já não estava lá essas coisas há tempos, eu tinha a consciência de que esse momento logo chegaria, mas não havia me preparado, a gente nunca se prepara para o que é necessário, inevitável. Minha mulher entrou na sala, viu que eu estava chorando e veio me dar um abraço, eu adorava o fato dela nunca perguntar o que estava acontecendo, é como se ela lesse minha mente e soubesse exatamente o que eu passava, o que eu queria e o que eu precisava. Naquela hora, eu precisava de um abraço. Ela se sentou ao meu lado, atendeu à minha necessidade e falou:

-Você quer que eu vá com você?

Eu não iria fazer minha mulher grávida de sete meses sair de casa àquela hora sem que fosse realmente necessário. Então expliquei a ela que seria melhor ela descansar, pois o dia seguinte seria difícil e que eu iria precisar dela.
Me arrumei, dei um beijo nela, outro em sua barriga e, nesse momento, lágrimas vieram aos meus olhos, então olhei para a barriga da minha mulher e disse:

-Hoje, minha filha, um grande homem se foi, um homem que você não terá a sorte de conhecer, mas que ainda ouvirá muitas histórias à respeito.

Dito isso, tratei de sair de casa antes que começasse a de fato chorar.
Entrei no carro respirando fundo, me controlando. Meu avô sempre me disse que ele não queria choro quando ele morresse, ele admitia a própria hipocrisia ao dizer isso, mas ele achava que definitivamente o melhor era não chorar por tristeza, para ele, a tristeza é um sentimento ruim demais para merecer nossas lágrimas.

-Guarde suas lágrimas para nossa próxima crise de riso, está bem? - aconselhava ele.
Meu Deus, como doía o fato de que não haveria próxima crise de riso, não haveria mais almoços em família aos domingos, agora, o vovô só se faria presente em minhas lembranças e nas de todos da nossa família, todos que puderam estar próximos o bastante para ter a chance de admirar aquele homem, aquele herói.
Lembrei da minha infância, na qual religiosamente eu ia passar fins de semana no sítio com ele e a vovó, lembrei das tardes de sábado, de como ele sentava na grama cansado e mandava aquele "Puta que pariu, moleque, um dia você me mata com esses piques", lembrei das histórias engraçadas contadas na sala depois do jantar, de como ele me fazia rir zoando com a cara da vovó, como ele tinha crises e crises de riso da minha cara quando ele conseguia me dar um susto, como ele quando eu entrei na adolescência, me dava dinheiro para eu comprar playboys escondido do meu pai, de quando ele despencava lá do sítio só para me levar e me buscar nas festas, dos conselhos de como cortejar uma moça, do fusca que ele me deu no meu aniversário de 18 anos, de como ele chorou no meu casamento, de como ele vibrou com a notícia de que seria bisavô.
Chegando na casa da vovó, a primeira pessoa que vi foi minha tia, ela sempre foi uma mulher que me impressionou com sua força. Ela não chorava, e quando me viu, apenas veio me abraçar. Abraçou-me com todo o carinho materno que ela tinha por mim. E eu, recebi aquele carinho, aquela calma, aquela segurança, que só as nossas figuras maternas conseguem nos passar. Meu pai estava na cozinha com a minha avó. Mas eu não fui até lá ver eles, fui direto para o quarto, eu queria ver ele, estar com ele pela última vez.
Quando cheguei no quarto o choro me veio à garganta novamente. Me controlei mais uma vez, sentei-me na cama, ao lado do corpo, peguei em sua mão enrugada e gélida. E comecei a falar:

-Olha vovô, eu não sei se o senhor consegue me escutar, mas eu vou fingir que sim e falar tudo que preciso. Talvez e nunca tenha dito ao senhor que o senhor era um grande homem, um sábio, um herói. Talvez eu nem tenha dito ao senhor que eu te amo muito, que o senhor é o meu ídolo, e que, respondendo de novo à uma pergunta que o senhor me fez, quando eu crescer eu quero ser como o senhor, grande. E saiba que eu nunca deixarei de amar o senhor, nunca esquecerei o senhor, sempre lembrarei do que o senhor me ensinou, me disse, me proporcionou e de todos os momentos maravilhosos que passamos juntos, queria pedir desculpa por não atender ao seu pedido de segurar meu choro, e dizer que nós temos muito orgulho do senhor, até a sua bisnetinha que nem teve a sorte de te conhecer. Te amarei sempre, meu velho.

Beijei sua testa e fiquei durante tempo indeterminado admirando aquele homem, aquele herói.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Idílios de uma volta pra casa

Eu ando pela rua. Ela está deserta. O tempo está frio. O MP3 toca Fix You, Coldplay. Eu penso. Eu quero escrever, acabo de perceber que essa vontade só bate à minha porta quando estou para baixo. Eu estou para baixo. Eu me pergunto por que eu me sinto assim. Eu não tenho a mínima ideia.
Uma avalanche de sentimentos me invade agora. Sentimentos que me incomodam, que me chateiam e, às vezes, até me atormentam. Dentre eles, há um que se destaca: eu sinto medo. Medo de perder tudo, medo de perder meus amigos, medo do mundo, medo do homem.
Uma avalanche ainda maior de pensamentos agora me toma, quase me tomba. Eu acho impressionante a rapidez de um pensamento e a capacidade do homem de pensar em várias coisas ao mesmo tempo. Eu penso nas mil evidências quase catalogadas de que eu te esqueci. Eu penso em todas as merdas que eu fiz. Eu penso que preciso rezar. Pra me acalmar, pra me aliviar, pra me perdoar, pra pedir. Eu penso no quê tenho que fazer amanhã. Agora eu, distraido, quase fui atropelado. O motorista está me xingando, mas eu não ligo. Eu nem sequer escuto. Tudo o que faço agora é esfregar as mãos, numa tentativa sem êxito de me esquentar, e chego à conclusão de que estou com fome, enquanto Chris Martin canta os últimos versos da canção.

"Lights will guide you home,
and ignite your bones,
and I will try to fix you."
PS1: este texto foi escrito na segunda-feira
PS2: não, eu não sou autista
PS3: não, me suicidar não está entre meus planos, rs.

domingo, 23 de maio de 2010

Um sonho, a fuga

O quarto estava escuro e úmido. Ela já se encontrava nele havia algum tempo. Ela procurava por uma saída. Uma saída de emergência. Ela queria fugir daquele monstro, aquele incêndio que se recusava a apagar, aquela dor de cabeça, aquela tormenta que a habitava. Aquela dor de cabeça, aquela dor que ela sentia, aquela dor que vinha de suas lágrimas, ela mesma já não tinha noção de por quanto tempo seguido ela tinha chorado, ela já não tinha noção de quanto tempo já estava presa naquele quarto, ela já não tinha mais noção. Agora, ela só pensava em uma saída. Ela só queria uma saída. Uma saída de emergência.
Ela procurava uma saída. Uma saída dos problemas. Uma saída do sofrimento. Uma saída dos tormentos. Ela procurava uma caneta, uma caderneta, um lápis, um pedaço de carvão. Ela queria escrever. Talvez essa fosse a saída. Ela queria uma inspiração. Ela tinha uma (?). Mas ela já estava cansada daquela inspiração. Aquela inspiração que já a tinha feito sorrir, que já tinha a feito chorar, aquela inspiração da qual agora ela procurava uma saída. Ela queria uma saída daquela pessoa. Com aquela pessoa. Ela queria uma saída da filha de uma puta daquela paixão, daquele amor, que no final, talvez fosse uma saída...
Ela acordou. Acordou, enxugou aquelas lágrimas e pensou “Passou, foi só um sonho...”. Mas aquele não era um sonho qualquer, ele era um sonho real, um sonho que se repetia diariamente desde um tempo indefinido. Um sonho que ela já tinha visto muitas vezes, porém nunca havia percebido, afinal, ele estava maquiado pelo seu cotidiano, sua vida. Um sonho que voltaria todas as madrugadas. Um sonho que a faria chorar antes de adormecer, enquanto ela pensava numa saída.

domingo, 9 de maio de 2010

O feminino do amor


Eu não sei o que dizer a uma pessoa que não tem limites de importância, não sei o que dizer à pessoa que me pôs no mundo, que me gerou, que me criou, não sei o que dizer à pessoa que me mais me protege, não sei o que dizer à pessoa que, se pudesse, me livraria de todos o males, não sei o que dizer à pessoa que afagou meus prantos, me fez sentir protegido até mesmo de meus pesadelos, do que não era real. Não sei o que dizer à pessoa que cuida de mim como ninguém, que me diz coisas do tipo "conserta a postura", ou "ficar tanto tempo em frente do computador vai fazer mal à sua visão", não sei o que dizer à pessoa que se importa tanto comigo. Que me chama de meu branco, biú, coisa linda de mamãe... Não sei o que dizer à pessoa que me ama mais do que tudo, não sei o que dizer à pessoa que eu amo mais do que tudo.

O que eu deveria dizer ao meu anjo da guarda?


"Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

E não ha nada pra comparar

Para poder lhe explicar

Como é grande o meu amor por você "


Roberto Carlos, trecho da música "Como é grande o meu amor por você"



Mãe, saiba que eu te desejo o maior felicidade desse mundo e que eu te amo incondicionalmente.


Parabéns a todas essas "anjas" que os protegem, nos amam, e cuidam de nós sem nem mesmo se importar consigo mesma, sem nem mesmo se importar com o próprio bem-estar, com sua própria felicidade, basta a nossa, a de seus filhos.


Mamãe(s), obrigado por existir.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dois significados e um devaneio

Sabe aquelas cenas de desenho animado, em que o cavala empaca quando o personagem precisa que ele ande? E aí , o personagem tem a brilhante ideia de pendurar um tipo de vara no pescoço do cavalo, em que na outra extremidade encontra-se um punhado de capim, de modo que o capim fique à vista do cavalo e ele corra atrás daquele capim. O cavalo desempaca. E não só desempaca como ficaria uma vida inteira correndo atrás daquele capim. Aquele capim, para o cavalo, representa o que muitos seres humanos também passam a vida correndo atrás. O sucesso.

UM SIGNIFICADO
sucesso (s. m.) - 1. Aquilo que sucede; acontecimento; facto; caso; acidente; 2. Parto; 3. Gal. Êxito, bom resultado.

Essa semana esse pensamento me fez refletir muito. Pois nessa semana eu representei o papel do cavalo, e comecei a corrida atrás desse tal de sucesso, ao qual ninguém de fato conhece a definição. Aliás, a definição está aí, para quem quiser ver, ela só não é satisfatória, pois sucesso não um termo que se define assim, por palavras, e sim por um contexto de história e de sonhos de vida de um individuo.
Será que vale a pena correr tanto atrás de sucesso? Vamos voltar ao exemplo do cavalo. Ele irá continuar correndo, até quando ele puder, atrás do sucesso, enquanto ele estiver vivo, enquanto correr sangue por suas artérias e veias, ele não esquecerá daquele capim que um dia foi um sonho seu. Um dia, ele poderá até desistir dessa incessível luta, mas para sempre ele sonhará em saber como é saborear o sucesso. Mas é lógico que ele é um cavalo, e não tem racionalidade para perceber que aquele esforço todo talvez não valha a pena. Tudo isso, que seja lembrado, um por causa um mísero punhado de capim.
E nós, seres humanos, temos essa racionalidade? Acho que não, acho que somos como o cavalo, que nunca desistirá, ou se desistir, nunca esquecerá do sucesso, conseguindo, e realizando um sonho, ou desistindo, ganhando mais uma decepção, mais uma frustração. Ou talvez sejamos piores que o cavalo, pois o cavalo sabe o que o sucesso representa para ele, e nós não.

UM SIGNIFICADO QUE NÃO SE ENCONTRA NO DICIONÁRIO
sucesso (s. m.) - 1. Capim; 2. Um sonho de vida; 3. O que te faz desempacar.

Mas isso é só mais um aspecto que completa a irracionalidade humana. Isso é só mais uma reflexão que não vai levar a nada. Isso é só mais um devaneio desse meu mundo, ou melhor, desse meu autismo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Desafio

Confesso, estou cansado. Cansado de tudo, da minha rotina, dos meus problemas, da minha simples vida. Cansado dessa mesmice que me segue como uma sombra, cansado de estar cansado.
Pode parecer meio clichê, e alguém vir me falar "aah, que idiotice, eu também quero isso", mas foda-se. A verdade é que a minha vontade é sumir. Às vezes eu entro na ilusão de que eu, um dia, vou pode pegar um ônibus, desce no lugar que me der na telha e sair andando sem rumo. Andar, andar, andar sem parar. Quando a noite chegar, eu apreciarei as estrelas, pensarei no amor que sinto por tudo e por todos, olharei para a Lua e sentirei a paz transmitida por ela. me deitarei no capim molhado pelo sereno e tentarei achar formas nas estrelas, sozinho. Veria o nascer do sol, rezaria, agradeceria à Deus por mais um dia em minha simples vida, levantaria, e continuaria andando, sem rumo. Quando me cansasse, sentaria sob uma árvore, desfrutaria da sombra e do vento a acariciar-me, comeria um de seus frutos, e continuaria andando até me cansar de andar, meus pés começarem a latejar, meu coração sentir falta daqueles que amo, ai sim, eu voltaria para casa, voltaria para a realidade, para a rotina, para a monotonia, para a realidade.
Sim, eu sei que eu conseguisse realizar esse desejo, eu conseguiria tocar a linha do impossível, talvez ultrapassá-la, porém, penso que sonhar não custa nada, ou se custar, o custo é saber que o próprio sonho não é a realidade. Acho que uma cura mais simples para essa minha insanidade, para esse meu cansaço, dentre outras coisas, seria uma dose dupla de novidades. Mas, infelizmente, isso também é sonho.
Chego à conclusão de que o problema não está na realidade, está em sonhar. Acho que tenho que sair desse platonismo, dessa fantasia, desse castelinho de cristal que me protege.
"Queria eu viver em um mundo platônico, a realidade, assusta"