domingo, 13 de fevereiro de 2011

Peleja

Calça cáqui, camisa branca desabotoada. Um chapéu de palha mal colocado na cabeça. Gastas sandálias franciscanas calçando seus pés sujos pela poeira da terra seca como sua garganta. Implora por um copo d'água, seja ardente ou não. Vê uma estrada. Pode-se ver a quentura saindo do asfalto velho assim como pode-se vê-la saindo do carvão em brasa. Segue seu caminho pelo meio da estrada. Um carro, uma alma viva que viesse por ali seria uma bênção. "E Ele vai me abençoar mais uma vez" pensou o andarilho em sua fé católica.

A bênção veio, mas foi à cavalo. Uma bonita moçoila, montada numa velha carroça, abre os lábios carnundos em um sorriso estonteante para o andarilho. O suor fazia com que seu cabelo ondulado ficasse agarrado ao pescoço.Trajava um vestido estampado em pequenas e múltiplas flores, a pele queimada e castigada pelo sol nordestino.

-É miragem? - perguntou o andarilho.

-Nem s'eu subesse o que que é isso, moço. - o sorriso não saíra de sua boca - Vai uma caroninha?

Sem responder, o homem subiu na carroça e se sentou ao lado da moça. Ele não pode deixar de evitar uma olhada de soslaio em suas grossas pernas. Seguiram quietos até um casebre de sapê onde a moça parou a carroça com um "ôôôua". A porta de entrada era na cozinha, chão de cimento batido, flores num copo em cima da pia.

A menina encheu um copo d'água da torneira e deu ao homem.

-Antes quo sinhô morra - acrescentou.

-Gradecido.

-Donde o sinhô vem?

-Ah, cê num va sabê onde é não.

-E pronde tá ino?

-Num sei não.

-Como, num sabe, num dicidiu?

-Deus decide, menina. Eu só ando.

A moça não precisava de palavras para expressar sua perplexidade.

-Ninguém sabe pra onde tá indo, Deus decide tudo e as pessoas saem andando por aí. Sem rumo, sem ter certeza daonde vão parar.

-Tendi.

A moça encheu o copo do andarilho novamente.

-E você, mora com quem?

-Marido e filho.

-Quantos anos?

-Desessete primavera.

-Já com essa vida?

-Deus decide pronde nóis vai, moço. Mas Ele num é bobo de mandar todo mundo pelo mesmo caminho.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Christmas magic

Ele coçava os olhos verdes irritados pelo sono. Já era quase meia-noite, mas ele continuava ali, resistindo. Sua mulher havia lhe chamado pela terceira vez para ir pra cama ele respondera com um "já vou" distraído. Ele precisava continuar ali. Ele queria o ver mais uma vez.
A escuridão lhe parecia convidativa, era como se fechar ou não os olhos não fizesse diferença ao adormecer. O vento que uivava pela fresta da janela fazia cócegas em sua nuca. E as luzes da árvore eram as únicas coisas que se modificava na sala. Até o gato agora estava quieto, repousando em seu vigésimo quarto sono, recostado aos pés vestidos por meias verdes.
Ouve-se um tilintar de sininhos. Excitação. Os olhos verdes e velhos brilhavam como os de uma criança ao ver um chocolate. Vê se uma sombra enorme e gorda.
-É ele!- exclama o velhinho em sussurro.
Então entra na sala um velho com cabelos e barbas enormes e com textura de algodão, trajado em vestes vermelhA com um cinto preto na cintura, um gorro na cabeça e um saco enorme e abarrotado na mão direita.
-Depois de...
-74 anos, eu ainda acredito no senhor.
O Papai Noel enxuga seus olhos marejados pela emoção. Tirou o saco das costas, abriu-o e tirou uma boneca de pano, a qual ele recostou na base da árvore.
-Espero que a Liz, sua netinha, goste.
-Ela vai gostar, obrigado.
-E agora o seu presente.
-Só crianças ganham presentes, não?
-Só crianças ficam acordadas até uma hora dessas me esperando, Lucas.- respondeu o Noel- Não sei se vai gostar do presente, mas foi o melhor que consegui pensar.
Ele se adiantou, foi até o velhinho e lhe deu um abraço.
-Obrigado, meu amigo.
O velhinho sem reação, só conseguiu pensar e uma coisa para falar, ele sabia que não era propício à ocasião, porém perguntou:
-O senhor existe mesmo?
-Ho-ho-ho. Você não está me vendo, Lucas?!
-Estou, mas pode ser apenas um sonho.
-E se for, deixaria de ser real? Eu quero dizer, pra você?
-Não.
-Isso é o que importa. Isso é o que todos chamam de magia. Tenho muito trabalho a fazer. Feliz Natal.
Com um sorriso nos lábios, o bom velhinho se espremeu na lareira e começou a escalá-la.
No andar superior, Liz acordou a mãe com uma felicidade estampada no rosto.
-Mamãe, mamãe, é o Papai Noel!
A mãe nunca havia acreditado em seu pai quando ele dizia, depois de velho, que o bom velhinho existia. Porém, naquela noite em especial, ela podia jurar ter ouvido um tilintar de sinos e um distante "Ho-ho-ho, Feliz Natal!".


A magia existe, e ela contagia.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Eu havia feito um texto todo legalzinho pro Natal, mas eu acabei o perdendo, e só fui achar hoje... Talvez eu poste depois, afinal, o Natal não deveria ser uma época, deveria ser um estado de espírito, concorda?

Feliz Natal mais que atrasado.

Abraço

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma história de amor.

Ali, ao som das ondas espancando as pedras, ele chorava. Gritava. Não, não havia som. Se houvesse ele nunca saberia. Sua cabeça doía demais para prestar atenção em qualquer coisa que não fosse sua própria dor.
Um relâmpago de lembranças veio a sua mente, e agora, como se pudesse voltar no tempo, ele se encontrava num bar, onde tinha visto aquela morena de sorriso bonito e tinha lhe falado algumas frases em um francês romântico e sussurrado. Agora, como se uma ventania o levasse pra outro tempo e espaço, ele se encontrava numa cama, ela sobe ele. Prazer. Pele com pele. Suor com suor. Ele a sentia em seu íntimo. Um último gemido em uníssono. Ela olha pra ele com um olhar apaixonado e o propõe o eterno.
O casamento. Ele nunca havia visto tão belo ser em toda a sua existência. Ela vinha com olhos marejados e aquele mesmo sorriso que ele havia se apaixonado no rosto. "Eu me apaixono a cada vez que a olho", pensou ele, mas não externou seu pensamento, ele deveria o ter feito. A ventania o levou de novo.
Ele estava na sala. Aquela espera era infinita. A parteira veio, "O senhor pode ir vê-los". Ele entrou no quarto, ela repousava na cama, cochilando. A criança estava no moisés na cabeceira da cama. Ele foi até ela e deu-lhe um beijo na testa, sentiu o gosto salgado do suor, e riu pela situação. "Não olha pra mim, to me sentindo uma vaca suja e gorda". Ele tornou a rir da frase espirituosa. Olhou para o pequeno embrulho repousado no moisés. "Ele e o joelhinho mais lindo do mundo", disse. "Joelho é o cacete".
De volta à pirambeira à beira do mar, ele sentiu suas costas doendo. Começava a chover. Nem o sol tinha força de espírito para se mostrar em tão fúnebre dia. Ele olhou a pedra ao lado, contemplando seus nomes nela escritos, um sinal de eternidade. "Até que a morte nos separe"...
Buscou uma razão, uma razão para o que tinha acontecido. Não encontrou. A única coisa que conseguia pensar com nitidez era o que alegrava. Ele pensava na imagem de um garotinho moreno, com os mesmos olhos de jabuticaba da mãe. Aquele era o presente que havia deixado.
Aqueles pezinhos gordos, aquele "upa" apertado, aquele sorrisinho desdentado. Aquela sim era uma razão para viver.
Ele olhou para o céu, enxugou suas lágrimas, levantou e se encaminhou para o carro. Mudança de planos. Num impulso ele se virou para o abismo, pegou impulso e se jogou. "Je peux voler".

sábado, 20 de novembro de 2010

Carma

Duas frases:

"Ria e o mundo rirá com você, chore e você chorará sozinho"

"Ao fim do espatáculo, o palhaço chora sozinho"

E esse é o preço que se paga por ser uma pessoa considerada "forte".

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

.

Ela estava magnífica naquele vestido preto, à porta do prédio. Já haviam se passado 30 minutos desde que seu noivo havia lhe dito que "tava chegando", e ela desde então ali esperava. Eles iriam a um baile para comemorar seus 6 anos juntos. Começavam a cair os primeiros pingos da chuva que havia sido prometida pela garota do tempo.
"Só me faltava essa", pensou ela. A porta do edifício se abriu. Era a sua mãe, com certo espanto
estampado na cara.
-O Lauro sofreu um acidente.
-O quê?
-É isso mesmo minha filha -consolou-a a mãe -Eu sei que é difícil, era pra ser uma noite de comemoração pra voc...
-E quem disse que não é?
E num ato de certa insanidade, como se nada houvesse acontecido, ela se encaminhou para o meio da rua, onde começou a dançar, ao som de Kiss Me. O som vinha de sua própria cabeça, porém era como se todos ali em volta pudessem ouvir também. Ela ria. Gargalhava. A sensação da chuva a afagar-lha a face lhe agradava.
-Vem mãe! Vem comemorar a chuva.
A mãe não estava entendo nada daquilo que a filha estava fazendo. Você provavelmente também não está. E, pra ser sincero, muito menos eu.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Pour tout la vie.

Ela estava ali por não saber lugar melhor para estar. Depois de 27 anos de tristeza e vida difícil, ela finalmente tinha um motivo para comemorar. Depois que havia perdido a mãe e depois de ter descoberto que o sumiço de seu pai se baseava na causa de ele ter morrido havia 3 meses, ela dedicou sua vida ao estudo, ao seu sucesso profissional. Com a ajuda de um ex-namorado, que ainda a reservava uma paixão indesejada, ela juntou algum dinheiro e partiu com a cara e a coragem para aquele país de sonhos. Lá ela conseguiu um emprego numa grife e naquele dia soube que seria promovida ao escalão de estilistas. Esse era o motivo para comemoração.
Ele estava ali por sempre ter sido uma pessoa solitária. Aquele tipo de rapaz que sempre foi introspectivo e, por isso, misterioso. Ele a olhava.
Não era pra menos. Aquela jovem brasileira fazia qualquer gringo sonhar com sua companhia. Morena, olhos de jabuticaba, sorriso bonito, corpo sedutor, cabelos ondulados. Ela percebia quando olhos se fixavam nela e mostrava certa indiferença. Mas não daquela vez, aqueles olhos a devoravam de forma que ela não conseguia disfarçar sua percepção e se deixava dar não tão discretas olhadelas ao rapaz, que também não deixava de ser atraente.
Ele era do tipo de rapaz que se imagina daqui a vinte anos com uma toalha enrolada no quadril, um martini na mão e uma loura na cama. Ar intelectual e beleza mediana. Nunca naqueles 2 meses que ela se encontrava naquele país, alguém havia atraido de tal forma.
Ele se levantou. Foi em direção a ela sem ao menos disfarçar chegou ao seu ouvido e sussurrou:
-Je te regarde, et j'ai conclu que vous êtes l'une des plus belles choses que j'ai jamais vu.
Ela sentiu um arrepio lhe subir pela coluna e com um risinho no rosto respondeu que já havia percebido. E em seguida, ele disse:
-Que puis-je faire pour continuer à vous regarder?
-Jusqu'à quand?
-Pour tout la vie.
Ali começava um romance digno de melodrama de Shakespeare.
.
PS: Para melhor compreensão do diálogo: http://translate.google.com.br/#frpt