quarta-feira, 4 de abril de 2012

Seu budega

Eu num sô da elite, num sô na zona nobre, num istudei, num sei recitar poema (má que eu acho bonito eu acho!), num sei falar ingrês, num sei mexê em cumputador. Dia desse menino novo passou 'qui em frente com celular na mão, perguntei ele cumé que fazia pra mexê naquela bodega. Ele me mostrô umas tecrinha piquititinha por demais que eu num consegui vê do que se tratava no visor. Num uso óculo, bodega feia por dimais. Ismiucio os'óio pra vê aquelas letrinha piquena que aparece nas coisa má que nada, consigo xergá nada. Trabaio de jardinero em casa de granfino la pra área das mansão. Corto, capino, varro, limpo, aparo, colho, cuido das rosa da patroa. As rosas da patroa são as coisa mais linda de si vê! cada bitela dumas rosa vermeia! 'ses dia inté robei uma pra levar pra casa pra dá pra minha netinha. A bichinha passô pra formação de professora. Coisa mais linda é vê aquele monte de dente na boca da minha menina quano veio me dá a nutícia. Passei vô eu vo sê professora. Eu garrei ela no colo e rudupiei de alegria, é bom quando as criança da um gosto desse pra nois. É bom vê que ela vai tê uma vida meió que a minha, vai ter mais cundição, vai mandar os fio dela pra iscola de gente inteligente, que ela ta gostano do futuro que ela vai tê, gostano do trabaio. Eu gosto muito do meu trabaio. Minhas roserinha são minhas coisa mais linda, tem inté nome, nome da minha mãe, da minha avó, das minha duas filha, da mulher da minha vida Carmem, da minha neta, da minha patroa, isso dão sete rosera. Eu boto mata bixo, rego, podo, corta as rosa pra patroa, tiro os espinho e levo pra dentro de casa pra botar na sala da patroa, fica lindo que só. A patroa tem dois fio. O mais veio é surdo, mas inteligente que só, a gente fala com ele normal e ele entede tudin, vê tudin, sente tudin. Tenho uma pena danada do rapaz, num consegue arrumar namorada, nem amigo, nem nada. Ninguem tem paciença. Eu chamo ele pra cuidar do jardim comigo ele vai, faz uns sinal pra perguntar comé que faz as coisa, eu ensino e ele bota um sorriso de oreia a oreia quando pranta uma coisa, ou vê que o pé de melancia ta dando fruto, exempro; ai nessas hora o muleque fica tao bunito que eu queria ver rapariga destratar ele. Ele nunca quer ir pra iscola, que ficar no jardim comigo, na cozinha com a Graça ou vendo a irmã tocar piano. Ô diacho de coisa bunita também! Eu, ele mais a Graça sentamo em volta dela e ela toca as tecrinha, chega a arrupiá só de lembrá, e nois tenta imitar a melodia cum a boca, o menino não, ele só para e fecha os zoio. Antonte ele chorô, nois sabe que ele num é feliz, e ele não precisa falar pra nois sabê. Má nois tambem sabe que vimo ele chorano, e dai eu pensei qu'essa budega de musica é tao coisa que nem precisa ouvi pra senti. Ai que a gente vê cumé que a vida é bunita por demais, as rosas, o garoto que sente por demais, as canjica da minha minina puquê passô na prova, a cara da minha mulhé toda vez que eu chego em casa com o pão que nois bataia tanto pra comprá... Ih 'gora eu tenho que ir que a bendita ta chamando pra cumê... Vamo entrar siminino! ta sirvido? Só num repara na casa, que nois é humilde...

sábado, 3 de março de 2012

Minha louça

"Caro Sr. Teixeira,

fiquei sabendo da promoção que o senhor está a promover na cidade. Bem, eu aposto que o senhor deve ter recebido estórias maravilhosas sobre nascimentos de bebês, casamentos felizes e tudo o que há de clichê e feliz sobre famílias nas redondezas. Fico feliz por todos esses mentirosos que o enviaram essas cartas e por suas falaciosas felicidades.
Sim, mentira é uma palavra muito forte, mas verdadeira nesse caso. Aposto que alguns lhe enviaram cartas falando sobre como sofreram e agora deram a volta por cima. Sobre como suas mulheres, maridos, filhos morreram e agora eles se lembram deles numa linda lembrança de uma tarde de domingo. MENTIROSOS. É isso que eles são. Ninguém fica feliz depois de perder alguém para a morte, depois de ser traído, depois de perder sua casa. NINGUÉM. E se um dia, consegue-se ser feliz, não se deve creditar a felicidade em superação própria, não. Minha mãe morreu quando eu era adolescente, e acredite em mim, eu nunca superei a morte dela. Não. Nunca. Se eu fui feliz depois disso? Sim, eu fui. Mas não porque eu sou forte. Mas sim porque a vida continua. Ninguém abre mão da própria felicidade, e mortos estão mortos, sempre estarão. Não posso fazer nada por ela, nem pude quando o filho da puta do meu irmão a matou. Eu também não tenho a cara de pau de dizer que eu o perdoo, que eu entendo ele, já que a falecida era uma puta que nos maltratava e que iria me matar se ele não entrasse na frente e metesse a faca nela quinze vezes.
Ele está na prisão. Eu morro de raiva dele. Queria eu que minha mãe tivesse me matado naquele dia. Tanto sofrimento seria evitado. Acredite em mim, eu teria uma vida melhor se eu tivesse morrido naquele dia, senhor.
O senhor me entende? Um dia eu contei isso a uma freira, e ela disse que a minha historia é muito bonita, que eu deveria escrever um livro. Deus que me perdoe mas eu mandei aquela puta ir tomar no meio do cu dela. "O que há de bonito nessa vida fodida que eu tive?", eu perguntei. Como o senhor deve imaginar ela não soube me responder. Eu não entendo porque as pessoas querem transformar o sofrimento numa coisa bonita. Sofrimento é pra causar dor, se alguém realmente me admirasse, não me daria flores, não me diria palavras bonitas. Não é isso que eu quero. Eu quero ver a pessoa se colocar no meu lugar. Sofrer. Ai sim, eu ficaria feliz. Perguntaria a essa pessoa o que ela teria feito no meu lugar.
Mas eu não estou escrevendo para me lamentar, nem para desabafar, nem para criar pena. Quero falar sobre minha louça de porcelana.
Eu sou casada a quinze anos, e de lá pra cá não há nesse mundo um adjetivo que caracterize melhor minha vida do que "estável". Meu marido é estável, tem um emprego estável. Meu filho tem quatorze, suas notas no colégio são boas e estáveis, ele está pela primeira vez num relacionamento amoroso estável, com uma menina filha de uma advogada e um bancário, estáveis.
Minha vida é chata., entediante.
Meus amores são: em primeiro lugar, as rosas do meu jardim, eu as podo, rego, converso com elas e as corto para que elas cumpram o seu dever, um dos mais lindos na minha opinião: enfeitar e embelezar a vida. Em segundo lugar está minha costura, estou costurando uma nova cortina para o banheiro, está ficando ridícula, mas está me deixando feliz (ela está quase pronta!). Em terceiro, porém não menos importante está minha louça de porcelana. Todas as semanas eu a tiro do lugar, lavo peça por peça, enxugo, faço o polimento e guardo.
Eu a ganhei de presente de um amigo do Paulo, meu marido. O nome desse amigo é Geraldo. Ele é um homem alto, magro, cabelos bagunçados, fuma, bebe, xinga. O oposto de Paulo, instável.
Eu dei para Geraldo.
Dei uma, dei duas, dei três, dei mil vezes e daria mais um milhão se eu pudesse. Estar com ele era o meu único incentivo a continuar vivendo. Pensei mil vezes em me divorciar e ficar com ele (e ele teria aceitado), mas a graça estava na instabilidade do nosso relacionamento. Eu sei que se eu casasse com ele, ele ficaria exatamente como o Paulo. E eu daria para o primeiro melhor e mais jovem amigo que batesse à nossa porta. Eu não queria dar para outro. Eu queria o Paulo. Ele era a rosa que enfeitava a sala da minha vida. Entende?
Um dia ele disse que me amava demais para me ver casada com outro homem. Eu disse a ele que deixasse de ser um baitola dramático e me fodesse sobre a mesa da cozinha. Ele disse que não, que queria me amar como eu merecia. Então eu virei para ele e disse que eu era uma puta que deixava meu filho na escola e ia trair meu marido com o melhor amigo dele. "Eu não mereço o seu amor, Geraldo." "Mas eu quero te dar o meu amor." "E eu quero ser comida na mesa da cozinha, quem vai ter o pedido atendido?". Ele me mandou ir embora.
No dia seguinte apareceu aqui em casa. Chapéu na cabeça, todo bonito. Disse que estava passando para dizer adeus, e nos trazer presentes de despedida. Deu ao Paulo uma camisa pólo, ao Bruno (nosso filho) deu um livro, e a mim deu um conjunto de pratos de porcelana, lindo, com rosas amarelas desenhadas. "Pra você lembrar de mim."
Desde então, eu cuido daquela louça como se estivesse cuidando dele, nunca a usei. Nunca a tirei do armário com outro fim a não ser cuidar dela, mimá-la. Tenho medo de perder alguma peça, de trincar, de arranhar com uma faca. Não. Não a uso porque a amo demais, mais do que amei ao Geraldo, talvez.
Semana passada eu recebi a mais linda das notícias! Um revista de jardinagem vinha me fazer uma entrevista sobre as minhas roseiras! As minha meninas! Eu fiquei empolgadíssima. Eles viriam na quarta, às 11h. Então eu pensei que fosse a hora de usar o Geraldo. Quer dizer, a louça do Geraldo. Então virei pro meu filho "Bruno, vai lá no armário da sala de jantar e pega uma caixa grande que tem lá pra mãe. Cuidado que é pesado! Pega e bota na mesa da cozinha."
Fui dar a notícia às minhas meninas. "Todo esse esforço que mamãe tem com vocês valeu a pena! Nós vamos ficar famosas!". Eu estava deliciada. BANG. Um estardalhaço invadiu a cozinha. Quando eu irrompi pela porta encontrei um Bruno pasmo dizendo que não tinha prestado atenção onde a mesa estava e soltou o Geraldo no ar. Ou seja, a louça. Meus olhos se encheram de lágrimas, eu prendi o choro, me abaixei, abri a caixa e vi os cacos da minha paixão. Bruno disse que sentia muito, queria saber o que ele podia fazer para me ajudar. "Calar a boca é um bom começo, seu demente." eu pensei. Então eu virei para ele e disse:
-Sabe, meu filho. Tem coisas que a gente dá muito valor nessa vida e por isso superprotege, não as aproveita. Essa louça era uma das minhas maiores paixões na vida. Sim, essa que você acabou de quebrar. Entretanto eu me pergunto se o grande erro foi seu, que fodeu com a minha paixão, ou se foi meu, que nunca fez uso da louça. Seja como for, essa louça representava uma ilusão. Uma ilusão de que se eu a lavasse toda semana eu teria o mesmo prazer que eu tinha dando pra quem me deu ela. Não faça essa cara de assustado. Não me julgue, moleque. Você não sabe o que é vida, você não sabe o que é se enterrar em merda. Mas você está prestes a descobrir. Ah se está! Por que eu não aguento mais essa vida. Eu gosto de rosas, eu gosto de coisas que crescem de novo que renascem não importa quantas vezes a cortem. Minha missão aqui era te criar, ver que você já estava pronto pra vida. Bem, suponho eu que você já esteja bem grandinho, já que você acabou de tentar foder com a minha, seu imundo! Então eu acho que não tem mais nada que me prenda aqui, eu não quero ficar aqui pra ver você se tornar um inútil como seu pai, nem pra lavar os lenços cheios de catarro daquele maldito. Eu quero começar a fazer uma coisa que eu nunca fiz: viver. Renascer como uma rosa podada. Amarela, linda. E quem sabe alguém um dia me pinte num prato e me dê de presente a uma paixão.
-Eu sei que você vai ter raiva de mim, eu sei que eu estou fodendo tudo. Mas foi você que começou esse jogo. Fale pro seu pai que tem feijão congelado no freezer, e que o remédio pra hemorroida dele está na pia do banheiro. E você, aproveite a vida sem uma mãe. Eu já estive no seu lugar, e acredite: vai ser uma merda. Não há mais nada que eu possa fazer agora. Pensasse nas consequências antes de 'não ver onde estava a mesa'.
Virei as costas e sai. Me mudei pra essa nova cidade de onde agora escrevo e peço para que minha história seja lida na quermesse junina. Agora estou contente, e pela primeira vez posso dizer que superei algo: a perda da minha louça. O senhor tinha que ver como ela era linda...
Bem, o que o senhor me diz? Na minha opinião, a minha históra é muito mais interessante do que qualquer outra que o senhor recebeu. É uma mentira, admito. Mas uma mentira muito mais convincente do que essas banais sobre as quais me referi, aqui nós temos um exemplo de vida! Um estória inusitada! Além de ter um final feliz.

Espero por sua resposta,

Regina Gonzaga."

sábado, 21 de janeiro de 2012

Chão de giz

"Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque"
Chico Buarque. "Olhos nos olhos".


Olá. Gostaria de esclarecer os acontecimentos desses últimos tempos com clareza. Você me conhece, sabe que eu não suporto mal-entendidos ou fatos e acontecimentos que possam deixar dúvidas à sua ou a qualquer mente errante.

Quando eu me fui, tranquei-me numa casa de parentes nesse fim de mundo de onde escrevo esta carta. Tudo me entristecia. Fosse o pesamento de que a galinha em minha mesa tinha sido morta de forma calculista, apenas com intuito de me alimentar, fosse pelas flores pisadas da calçada, fosse por um simples olhar áspero de uma criança. Eu lutava tanto, mas as lágrimas insistiam em recusar a se retirarem dos meus olhos. Tudo me lembrava você. Fumaça de cigarro, flores na janela ou chocolate belga. Um vazio habitava meu peito, como se o coração batesse a vácuo. Meu olfato procurava seu cheiro no travesseiro, minha audição por vezes julgava escutar sua voz quente ao pé do ouvido e eu, ouso admitir, por uma ou duas vezes, acordei no meio da noite com a mão em meu sexo em brasa depois de um sonho que te incluía.

Chorei, devaneei, enlouqueci. Passei a duvidar da veracidade do passado, sua imagem passou a ser turva como um sonho antigo. Minha mente, prestativa, passava a te rejeitar de tal modo que eu duvidava de sua existência. Mas não adiantava, de algum modo eu consegui rejeitar o meu consciente para não te rejeitar. Pensei em voltar, pensei em me desculpar por minha tolice, pensei em pedir desculpa pelos seus erros, pensei em te pedir para ser l'ombre de ton chien, assim como sua musa Piaf um dia o fez. Ah, como eu quisera que as coisas tivessem sido diferentes. Eu correria daqui do fim do mundo à cidade, levando prendas a ti. Ouso dizer que te mataria só pra não ter que suportar a ideia de te ver um dia desfilando com seu novo alguém diante de meus olhos embriagados.

Amizades me disseram para sair dessa fossa de merda que me enterrei. A ideia me parecera maluca, nunca conseguiria te esquecer, deixar de te amar. E, de fato, nunca irei.

Não vou tentar iludir a nenhum de nós que eu te amo. Não pelo que você é. Se eu pudesse formar uma pessoa e por nela todos os defeitos que eu detesto em um ser humano, eu teria como resultado um clone seu. Aí, eu olharia para aquele corpo, aquele rosto suave e adormecido, e poria nessa criatura todas as qualidades que eu mais prezo, só para ficar perfeitamente igual a ti.

Eu te amo por mim. Eu amo o seu eu dentro de mim. Eu amo as manhãs de cócegas, eu amo o gosto de chocolate do seu beijo, eu amo as brigas, eu amo ter fugido de casa 15 minutos depois de você ter saído para ver sua mãe. Se eu não amasse isso tudo, que solução teria eu?

Passei a ser feliz ali, com o corpo enterrado em merda até a cintura naquela fossa que hoje já está decorada ao meu gosto. E nesse momento eu espero de todo o meu coração que minhas convicções de meses atrás estivessem certas: que você não me amava o bastante para sofrer com a minha partida. Caso confirmes minha razão, passe aqui nesse endereço do envelope da carta para tomarmos um cappuccino. Verás que me refiz, que aquele sorriso de antes está de novo tatuado em minha cara. Te apresentarei minha nova companhia, e nos contentaremos em ser bons e velhos amigos com algumas historias a mais na bagagem, mal não irá nos fazer, e se fizer teremos direito a uma despedida agradável. E caso você um dia me amara do jeito que falei, por favor não me conte. Pois eu posso sobreviver com toda essa merda em volta de mim, mas nunca com o arrependimento e a culpa de ter te feito sofrer.

No mais, é isso. O barulho do engarrafamento continua me enlouquecendo, eu continuo odiando limpar a casa e meus maiores companheiros são dois buldogues deitados aos meus pés no momento. Eles irão gostar de você.

Um abraço e um beijo.

De mim.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Alice Félix

Caneta descansada na mão, mão descançada no caderno. Na página presente lia-se milhares de "oi's" vazios, sem interlocutores. Dos olhos escuros, escorregava uma lágrima daquela que vem logo após o bocejo. Na televisão passava o video de Peter Pan, mais uma tentativa de ter uma fonte de inspiração.
Alice tinha há uns anos a estranha mania de ver cores em tudo que a circundava. Pessoas, sentimentos, livros, filmes. Naquele momento, ela olhava o caderno e via cinza, olhava pela janela e via a tarde ensolarada de domingo, cinza. Olhava o copo d'água em cima da mesinha de centro, cinza. Olhava o espelho, cinza. O relógio era cinza. O filme era colorido, Peter Pan sempre foi e sempre será verde claro.
"Que porra de vida" ria-se de sua própria desgraça. Alice preferia o preto ao cinza: o preto era morto, decidido em sua existência. Contrário ao branco, contrário à paz. O cinza era doente, e Alice sempre preferiu a morte à certas doenças, a morte dava descanço. A doença cansava. Alice estava doente. Talvez até uma patologia mais grave que câncer, tumores ou cistos. Alice tinha uma alma desiludida. Metástase.
Porém não, Alice não estava deprimida. Longe disso, aliás. Apenas desiludida, desanimada, com a vista cheia de cinza. Ria-se de seu desanimo. Achava bom não querer sair de casa. Não se depilava, não penteava o cabelo, trajava pijamas e escutava Chico o dia inteiro; "apesar de você amanhã a de ser outro dia". Regava o vaso de gérberas, dava ração ao gato. Saia somente para trabalhar, e quando o fazia. Tratava de tomar seu sorvete colorê sentada no banco da praça, sozinha.
Como o sorvete que descia por seu esôfago, Alice sabia que sua memória era mais colorida que um catálogo de cores. Alice costumava ser uma daquelas garotas que não se acredita que existem a menos que se veja. Sonhadora, cheia de amigos, inteligente, bonita. Em sua memória poderia ver, rever e reviver momentos amarelos ofuscantes, azuis profundos, rosas chock, vermelhos vivos, verdes claros, assim como Peter Pan.
Talvez esse fosse o problema de Alice, talvez ela tivesse sido tão feliz em seu passado que não achava que precisasse de mais no presente, sendo assim não buscava mais felicidade. Aliás essa suposição até mesmo a assustava. Um dia Alice foi ao psicólogo:
-Qual o seu problema, querida?
-Eu tenho medo de ser feliz pra sempre.
-Vou te encaminhar a um psiquiatra.
Alice não era louca e sabia daquilo. Mas como saberia se era feliz se não tivesse tristezas para provar tal situação. Tristezas apimentam a relação com a felicidade, assim como brigas apimentam relações amorosas. Alice queria ser feliz, mas queria ter tristezas.
Naquele momento, Alice não era nem triste nem feliz. Costumava dizer que aquele era um momento peso de papel. Mas sabia também que a vida era curta e que ser um peso de papel que não segurava papel contra o vento era pura perda de tempo.
Alice um dia passou por uma loja elegante no centro da cidade a caminho do trabalho. Alice ouvia 22 e cantarolava os versos da menina semelhante à própria, tinha um sorvete de pistache na mão e um "bigodinho" verde e gelado acima da boca. Alice parou em frente à vitrine e olhou aquele vestido violeta. Setecentos e oitenta e três reais constava a etiqueta. Num ato impensado e espontâneo, Alice entrou na loja, experimentou e comprou o vestido. Saiu da loja com o vestido no corpo. Fazia tempo que não sentia tão bonita. Fazia tempo que não havia ninguém que risse de suas doideiras. Fazia tempo que não havia ninguem que lhe dava motivo pra depilar a virilha. Fazia tempo que não acordava de manhã e sentia mais dois pés em sua cama.
Naquele dia, Alice sairia do trabalho, passaria na padaria, compraria pão e iria para casa tentar escrever mais uma vez. Mudança de planos, vamos dar um final feliz a essa história. Naquele dia, Alice iria sair direto do trabalho para um pub, e de vestido violeta e all star curtiria um show de rock alternativo. Beberia, riria, flertaria o garçom boa pinta mas beijaria o rapaz moreno que esbarrou na saída do banheiro. Ele a levaria em casa, ela traria o gato à porta pra ele conhecer. Não deixaria ele entrar, não que não quisesse mas sim porque a saúde capilar de sua área pubiana era admirável e deplorável. Deu boa noite a ele, o levou a porta, fez um café fresco e pensou que naquele dia violeta virara sua cor preferida.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Epitáfio idealizado

P.S.(sim, antes do texto): Antes que haja qualquer pergunta ou dúvida sobre isso, esse garoto não sou eu. Eu inventei ele às 4 dessa madrugada. Ou seja ele não existe, porém eu o admiraria se existisse.
:
Eu já perdi a noção do tempo que estou acordado, dirigindo nessa estrada. Saí de casa há dois dias e vou por essa estrada numa sede sem tamanho de chegar num lugar que ainda nem defini.
Imagino que em algum lugar acima de mim e do meu chevete 82, o sol esteja se pondo. Não consigo vê-lo, pois chove a cântaros onde estou. Chove como se não houvesse amanhã, Como se Deus tivesse falado a Noé que iria cair um toró do cacete e ele agora estivesse pondo um casal de cada espécie de animal num tipo de barco gigante.
Sinto medo. Nunca dirigi sozinho antes e agora eu necessito de uma grandessíssima experiência no volante para não deixar o carro derrapar e eu me estatelar em um abismo qualquer. Aliás, não seria nem o primeiro nem o último abismo qualquer que eu me estatelaria.
Toca Beatles no rádio. Here comes the sun. Acho essa música fantástica! Penso em como os Beatles são Fantásticos. É curioso o fato de que tudo que é fantástico acaba, seja de um jeito fantástico ou não. John Lennon, por exemplo, acabou de um jeito tão maluco que chega a ser fantástico. Imagina ser morto por um pirado que se diz fã do seu trabalho, que te ama... Vendo por esse lado eu chego a por em questão se é realmente ruim ter sido considerado o antissocial esquisito durante toda a minha vida. Pelo menos ninguém me mataria por amor. Isso é bom?
Rio de meu pensamento tolo. Rio de felicidade por pensar. Rio por pensar. Rio.
Sabe, essa música me deixa um pouco nostálgico, lembro da minha infância, difícil infância. A letra diz “ lá vem o sol, tudo está bem”. E eu percebo que por poucas vezes ou talvez nunca o sol tenha chegado à minha vida, não diretamente assim. Talvez seja assim com todo mundo, não sei.
Pelo menos imagino que se ele tivesse chegado, talvez anteontem eu tivesse dormido ao invés de esperar que meus pais e minha irmãzinha dormissem, pegar minha mochila, a chave do chevetão e os cem contos da economia para sair por ai nesse mundão de meu Deus para viver uma aventura besta, que provavelmente terminará na semana que vem com umas cintadas de papai. Definitivamente o sol não chegou à minha vida.
Ou talvez sim! Talvez tenha chegado! Talvez eu esteja ensolarado demais pras ideias escuras de uma “vida perfeita”. Perfeita é o caralho. Me matar de estudar, passar pra uma faculdade que me dará um bom emprego, casar, ter um casal de filhos, cair na mesma mesmice que os meus pais caíram, que os pais deles caíram, que os seus pais caíram e que ainda chamam de felicidade.
Quem foi o idiota que disse que a vida tem que ser assim? Quer saber? Vai ver é bom mudar um pouco esse script e é isso que eu estou tentando fazer. Nem que essa palhaçada termine com umas marcas de cinto na sexta que vem.
É, o sol bateu à minha porta.
Porém com toda essa revolução passando pela minha cabeça, eu sei que não vou conseguir. Não posso, não tenho coragem e talvez eu nem queira mudar o script. Sou apenas um ator. E atores representam. Podem representar bem, ganhar prêmios, Mas jamais podem mudar sequer o sentido de suas falas.
É impressionante como me distrai aqui em minhas divagações, errei na manobra de uma curva e agora estou de fato caindo no abismo qualquer. É impressionante como tudo muda de um segundo para outro. No minuto passado eu estava cerrando os olhos para conseguir enxergar através da chuva e da neblina para ver a estrada, prevenir minha vida, sem nem imaginar que agora eu estaria girando dentro do chevetão, e muito menos que no minuto seguinte eu estaria aos pés da ribanceira como que reverenciando o adversário vencedor.
Uma vez eu vi num filme um cara dizer que parecia clichê (e realmente era), mas que essa história de que no momento anterior à morte passa-se um filme de a vida na cabeça. Pois eu vos digo (e você concorda) que é clichê mas é de fato a verdade. Acontece comigo agora. Acho até bastante válido esse pequeno filme, é como se fosse uma revisão, uma resposta pra tal pergunta do que se fiz ao longo da vida.
Lembro-me do meu aniversário de quatro anos. Lembro-me de abrir os olhos e ver as paredes pintadas de verde claro do meu quarto iluminadas pelo sol radiante que inundava o quarto pela janela. Lembro de meus pais ainda mais radiantes entrando no quarto com um sorriso na boca e lágrimas no olhos. Vieram e me deram uma abraço triplo, uma demonstração do amor e da felicidade que sentiam pela ocasião.
Sempre achei que o abraço fosse o maior de todos os presentes que eu pudesse receber. É a demonstração mais pura e bela de amor. Do “preciso de você”. Do “eu quero te sentir”.
Lembro-me da primeira vez que experimentei café. Odiei o gosto. Fiz careta de nojo. Meu avô ria de mim. Saudades do vovô com seu cheiro de cigarro misturado com Phebo. Saudades da vovó também. Sempre guardo dela aquele sorriso bondoso, aquelas xicrinhas decoradas com flores na mão e os sapatos trocados nos pés. Saudades. Talvez eu os encontre daqui é pouco... Besteira. Nunca fui nem serei digno de ir para o mesmo lugar que esses dois foram.
Voltando ao café, o curioso é que depois de alguns minutos eu gostei do gosto que havia deixado em minha boca. Encostava a língua no céu da boca e tornava a afastar. Repetia o movimento. Apreciava aquele gostinho gostoso que ali jazia. Pensei que as pessoas deviam beber café pelo gosto que elas sentiam depois de um tempo. Elas fazem isso o tempo todo.
Penso no que deixo pra trás. Amigas e amigos talvez. Não sei se de fato os tenho. Penso em sexo. Nunca fiz, mas ouço dizer que é a melhor experiência que se pode passar. Uma pena que esteja deixando para trás uma coisa da qual eu nem passei dos treinos. Dizem que sexo é bom, maravilhoso, divino, belo. Porém duvido que seja mais belo que a risada que vi minha irmãzinha dar no café da manhã do dia em que saí de casa. Deixarei ela pra trás. Ela e toda essa alegria de toda criança.
Por fim, penso Nele. Ele sempre foi um enigma para mim, embora eu nunca tenha questionado ou duvidado de sua existência. Apenas sempre soube que Ele existia, O admirava e fazia o que podia para me aproximar dessa magnificência quando tinha oportunidade.
Houve uma ocasião em que eu estava num grupo de oração. A oradora dava uma espécie de palestra sobre um tema interessante quando eu entrei em uma espécie de transe, êxtase. Meus sentidos afloraram, pensamentos ficaram distantes e eu já não me sentia como naquele aposento. Tocava o polegar nos outros dedos, percebia meu tato. Percorria os dedos pelos cabelos e sentia aquela infinidade de fios passando por meus sentidos. E foi quando toquei minhas pálpebras, as portas das janelas da minha essência, que O percebi. Percebi que ele estava ali, dentro e fora de mim. Me tocando através das minhas próprias mãos.
Guardo esse último segundo de minha vida para admirar esse Ser supremo. Admiro-o por mim, admiro-o pela chuva que continua caindo insistentemente enquanto eu e o chevetão tocamos o chão, admiro-o pelo próprio chevetão velho. Ele, o Cara lá de cima, deve se sentir lisonjeado quando percebemos e admiramos sua perfeição.
PLUM, PAF, PUF, BOOM e outros milhares de onomatopeias de estronde se seguiram. Cheguei ao chão.


O despertador toca. 6h20min da manhã, hora da aula. Volto à vida real, normal, perfeita. Eu disse que não iria escapar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Peleja

Calça cáqui, camisa branca desabotoada. Um chapéu de palha mal colocado na cabeça. Gastas sandálias franciscanas calçando seus pés sujos pela poeira da terra seca como sua garganta. Implora por um copo d'água, seja ardente ou não. Vê uma estrada. Pode-se ver a quentura saindo do asfalto velho assim como pode-se vê-la saindo do carvão em brasa. Segue seu caminho pelo meio da estrada. Um carro, uma alma viva que viesse por ali seria uma bênção. "E Ele vai me abençoar mais uma vez" pensou o andarilho em sua fé católica.

A bênção veio, mas foi à cavalo. Uma bonita moçoila, montada numa velha carroça, abre os lábios carnundos em um sorriso estonteante para o andarilho. O suor fazia com que seu cabelo ondulado ficasse agarrado ao pescoço.Trajava um vestido estampado em pequenas e múltiplas flores, a pele queimada e castigada pelo sol nordestino.

-É miragem? - perguntou o andarilho.

-Nem s'eu subesse o que que é isso, moço. - o sorriso não saíra de sua boca - Vai uma caroninha?

Sem responder, o homem subiu na carroça e se sentou ao lado da moça. Ele não pode deixar de evitar uma olhada de soslaio em suas grossas pernas. Seguiram quietos até um casebre de sapê onde a moça parou a carroça com um "ôôôua". A porta de entrada era na cozinha, chão de cimento batido, flores num copo em cima da pia.

A menina encheu um copo d'água da torneira e deu ao homem.

-Antes quo sinhô morra - acrescentou.

-Gradecido.

-Donde o sinhô vem?

-Ah, cê num va sabê onde é não.

-E pronde tá ino?

-Num sei não.

-Como, num sabe, num dicidiu?

-Deus decide, menina. Eu só ando.

A moça não precisava de palavras para expressar sua perplexidade.

-Ninguém sabe pra onde tá indo, Deus decide tudo e as pessoas saem andando por aí. Sem rumo, sem ter certeza daonde vão parar.

-Tendi.

A moça encheu o copo do andarilho novamente.

-E você, mora com quem?

-Marido e filho.

-Quantos anos?

-Desessete primavera.

-Já com essa vida?

-Deus decide pronde nóis vai, moço. Mas Ele num é bobo de mandar todo mundo pelo mesmo caminho.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Christmas magic

Ele coçava os olhos verdes irritados pelo sono. Já era quase meia-noite, mas ele continuava ali, resistindo. Sua mulher havia lhe chamado pela terceira vez para ir pra cama ele respondera com um "já vou" distraído. Ele precisava continuar ali. Ele queria o ver mais uma vez.
A escuridão lhe parecia convidativa, era como se fechar ou não os olhos não fizesse diferença ao adormecer. O vento que uivava pela fresta da janela fazia cócegas em sua nuca. E as luzes da árvore eram as únicas coisas que se modificava na sala. Até o gato agora estava quieto, repousando em seu vigésimo quarto sono, recostado aos pés vestidos por meias verdes.
Ouve-se um tilintar de sininhos. Excitação. Os olhos verdes e velhos brilhavam como os de uma criança ao ver um chocolate. Vê se uma sombra enorme e gorda.
-É ele!- exclama o velhinho em sussurro.
Então entra na sala um velho com cabelos e barbas enormes e com textura de algodão, trajado em vestes vermelhA com um cinto preto na cintura, um gorro na cabeça e um saco enorme e abarrotado na mão direita.
-Depois de...
-74 anos, eu ainda acredito no senhor.
O Papai Noel enxuga seus olhos marejados pela emoção. Tirou o saco das costas, abriu-o e tirou uma boneca de pano, a qual ele recostou na base da árvore.
-Espero que a Liz, sua netinha, goste.
-Ela vai gostar, obrigado.
-E agora o seu presente.
-Só crianças ganham presentes, não?
-Só crianças ficam acordadas até uma hora dessas me esperando, Lucas.- respondeu o Noel- Não sei se vai gostar do presente, mas foi o melhor que consegui pensar.
Ele se adiantou, foi até o velhinho e lhe deu um abraço.
-Obrigado, meu amigo.
O velhinho sem reação, só conseguiu pensar e uma coisa para falar, ele sabia que não era propício à ocasião, porém perguntou:
-O senhor existe mesmo?
-Ho-ho-ho. Você não está me vendo, Lucas?!
-Estou, mas pode ser apenas um sonho.
-E se for, deixaria de ser real? Eu quero dizer, pra você?
-Não.
-Isso é o que importa. Isso é o que todos chamam de magia. Tenho muito trabalho a fazer. Feliz Natal.
Com um sorriso nos lábios, o bom velhinho se espremeu na lareira e começou a escalá-la.
No andar superior, Liz acordou a mãe com uma felicidade estampada no rosto.
-Mamãe, mamãe, é o Papai Noel!
A mãe nunca havia acreditado em seu pai quando ele dizia, depois de velho, que o bom velhinho existia. Porém, naquela noite em especial, ela podia jurar ter ouvido um tilintar de sinos e um distante "Ho-ho-ho, Feliz Natal!".


A magia existe, e ela contagia.