quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Promessa quebrada

A aula já havia começado quando a menininha de olhos de jabuticaba chegou de mão dada à sua mãe.
A mãe chamou a professora na porta falou meia dúzia de palavras, virou-se para a filha falando:

-Mamãe volta depois pra te buscar, tá, minha flor?

A menina respondeu com um sorrisinho amarelo a assistiu com o coraçãozinho apertado a mãe ir embora. Naquele dia, ela estava vestida com seu vestido preferido, cheio de flores e borboletas de todas as cores, "Hoje é um dia importante mamãe...", argumentava ela com a mãe, que, por fim, se deu por convencida a deixá-la usar aquele vestido.

-Venha, meu anjo. -chamou a professora-Turma, essa é a Júlia, a nova coleguinha de vocês. Digam 'oi' pra ela.
-OII!- disseram as crianças em uníssono
-Vai sentar na sua cadeira, lindinha.

A garotinha sentou-se na última cadeira da penúltima fila. Abriu seu caderno de bichinhos e pôs-se a desenhar. Ela era muito talentosa pra uma criança de 5 anos, seus desenhos não s resumiam a apenas rabiscos. Ela tentou desenhar o menininho que estava sentado ao lado. Mas logo desistiu.

-Ai, eu não consigo!-resmungou ela.

Olhou de novo para o menininho ao seu lado. Algo nele a intrigava. "Por que será que ele ta tão sozinho?" perguntava a si mesma.

-Ei, menino!

Nada.

-Eei eu to falando com você...

Nada.

-Você aí!-ela começava a elevar a voz...

A menina que estava à sua frente falou:

-Deixa ele. Ele não fala com ninguém... A tia até falou que ele é doente...
-Eu não acredito nisso.

Ela se levantou, puxou a carteira até o lado dele.

-Eu não saio daqui até você me dizer o seu nome.

Depois de meia hora, ele finalmente abriu a boca.

-Meu nome é Daniel.
-Que nome legal!-animou-se ela- Por que você é tão quieto?
-Eu tenho medo das pessoas...
-Mas você não precisa ter medo, pelo menos não de mim!

Ele lhe soltou um risinho abafado.

-Você é tão bonito...

Nesse momento o sinal tocou.

-Vem Daniel, eu to doida pra brincar naquele parquinho

E saiu puxando o menino por toda a escola até o parquinho. Lá, eles comeram o lanche que trouxeram de casa, brincaram de casinha, carrosel, todos os tipos de pique... Até que ao final da tarde, a menininha descalça e com os pés sujos de terra fez ao menininho certo pedido:

-Promete que vai ser meu amiguinho para sempre?
-Eu lá tenho outra escolha?!

E caíram numa daquelas gargalhadas gostosas de criança.

PS: Mal sabiam eles que, anos depois, aquele vestidinho de flores e borboletas, que a menina trajava, se tornaria um belo vestido branco, que aqueles pés sujos de terra se transformariam em sapatos engraxados e que eles estariam na frente um do outro dando aquela mesma gargalhada de criança e quebrando aquela promessa que haviam feito. Já que, seria pra sempre, mas não como amiguinhos.

4 comentários:

Aline Azevedo disse...

Dalton,
nunca li de você algo tão puro. Algo tão inocente. Lindo de se ler. De se imaginar, de se sentir junto.
E que o pra sempre, não seja só uma desculpa para amanhã.

Meu beijo.

Filipe Garcia disse...

Oi Dalton,

muito leve seu texto. Penso que o menino simboliza os adultos. Estes sim parecem ter medo de outras pessoas. Vejo as crianças se entenderem muito bem, enquanto nós, crescidos, só temos reclamações e julgamentos.

Um abraço.

Má Midlej disse...

Olha que final bonito, não imaginei que seria assim... por isso gostei tanto.
Vou ficar mais um pouco te lendo aqui.. rs
beijo.

Luu disse...

Ain, isso derrete qualquer coração.

Lindo!

;*